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O tempo cura?

Com frequência utilizamos a ideia do tempo como algo que cura. Quantos de nós já não ouvimos “deixa que o tempo resolve”? Mas será? Nem sempre. Em meio a esse tempo há muito dinamismo em nosso psiquismo na tentativa de elaborar sentimentos, angústias e conflitos.

Basta pensarmos em um processo de luto. Após a perda de alguém, passamos por diferentes estágios, sendo eles a negação, a raiva, a barganha, a depressão e, por fim, a aceitação. Cada estágio possui suas particularidades, as quais são sentidas por cada um de nós de forma diferente. Por isso, o tempo para a cura não é o mesmo para todos. Além disso, exige o investimento de muita energia durante cada uma das etapas. Há, portanto, muito mais nesse tempo do que o simples passar de horas, dias, semanas e meses.

Com a frequência do uso, o termo passou a ser compreendido de tal forma que muitos deixaram de enfrentar seus sentimentos diretamente, preferindo apenas “seguir vivendo”. Claro, a angústia não deve nos paralisar a ponto de não conseguirmos continuar com nossas atividades diárias. Mas o fato dela não nos paralisar não significa que ela não continue ai. Podemos não sentir mais com tanta intensidade um acontecimento por conta do tempo que passou, mas basta um simples gatilho para que essa mesma angústia se apresente de diferentes formas, em novas situações.

Isso acontece porque somos regidos por nosso inconsciente. Sabe aquela escolha que você pensou ser totalmente consciente? Sim, em partes ela foi. Mas há muitos outros motivos inconscientes que a determinaram. Agora, você deve estar se perguntando se isso é um problema. De forma alguma! Essa dinâmica faz parte de nosso psiquismo e, portanto, nos constitui. A grande questão está quando nos deparamos com atitudes e escolhas que seguem um determinado padrão que se traduz em conflito e angústia.

Cabe-nos, aqui, pensar o que está por trás desse padrão. O tempo não irá solucioná-lo sozinho. Pelo contrário, é possível que o tempo prolongue o conflito interno e nos mantenha nessa dinâmica de sofrimento. Precisamos assumir a responsabilidade pelo que estamos sentindo e por nossa mudança. O tempo não cura tudo, mas sim nossa disposição para lidar com questões internas. E isso implica, muitas vezes, buscar ajuda profissional. Ninguém precisa saber lidar com todas as situações angustiantes, mas nem por isso devemos jogar para o tempo lidar por nós.